CARACTERES FÍSICOS DOS CELTAS

 

 


“Este capítulo tratará, principalmente, dos aspectos da vida e preocupações mundanas da sociedade celta, tal como esta parece refletir-se muito uniformemente na tradição insular local, não menos do que na arqueologia e nos textos clássicos. Mas, antes de tudo, importa considerar a aparência física dos Celtas, pois foi um assunto de freqüentes comentários por autores gregos e latinos, e que nos impõe um esclarecimento sobre o termo raça em relação com este povo.
“Afirmou-se atrás que os gregos do tempo de Heródoto conseguiam distinguir entre cós Celtas por vários traços nacionais, do mesmo modo como se distinguiam uns dos outros, ainda há muito pouco tempo, quase todos os habitantes dos países da Europa, pelas diferenças regionais de vestuário e de características físicas. Foi no período após a grande expansão Celta, que incluiu a invasão do Norte da Itália, que o tipo físico dominante entre os Celtas chamou a atenção dos autores clássicos. Políbio, escrevendo no século II a.C. e inspirando-se, provavelmente, em fontes anteriores, referiu o aspecto terrível dos guerreiros gauleses bem constituídos, mas encontram-se descrições ainda mais explícitas, um pouco mais tarde, em Estrabão, Diodoro Sículo e Plínio, entre outros.
“Os Celtas causavam impressão aos olhos mediterrânicos pela altura, brancura da pele, desenvolvimento muscular, olhos azuis e pelo cabelo loiro. Deve acentuar-se desde já que estas características eram apontadas por contraste com o físico e a pigmentação dos observadores mediterrânicos e, em todo o caso, observavam-se nos elementos mais salientes da sociedade celta, chefes e guerreiros livres, não forçosamente em toda a população. As descrições clássicas concordam perfeitamente coma s normas de beleza da aristocracia insular celta, tais como no-la enaltece a literatura irlandesa antiga, pelo que há que pôr de parte muitos falsos conceitos populares atuais sobre o que constituía o Celta típico, por exemplo, da Gales ou das Hébrides. Resta apenas a questão relativa à apreciação do tipo genérico alto e loiro.
 
“Diga-se de passagem que o conceito de raças puras, com elementos fixos de estrutura e pigmentação, está há muito refutado pela ciência. O termo raça não é susceptível de definição rigorosa, aplicando-se apenas a classificações de tão tremenda generalidade como negra, branca ou amarela. Não deixa, porém, de ser verdade que, entre os grupos populacionais mais bem definidos, são de esperar certos conjuntos de características físicas. O que causa impressão ao observador não especializado é a acumulação de aspectos novos (para ele), se bem que muito poucos apenas de entre eles se encontrem em todos os indivíduos observados.
“Pelo que diz respeito ao tipo físico característico dos Celtas, há a acrescentar duas outras fontes à descrição literária. Em primeiro lugar há representações das artes plásticas, tanto clássicas como locais, e em segundo lugar há material osteológico das sepulturas celtas. Esta última massa de provas, ainda relativamente pobre, deverá aumentar de valor com o aperfeiçoamento da técnica de escavação e recuperação dos túmulos, mas também depende das condições químicas do solo, que divergem de um lugar para outro, e não pouco dos vários riscos de destruição que as ameaçam, inclusive à descoberta.
 
“As provas anatômicas encontradas nas sepulturas reconhecidamente celtas que contêm objetos de Hallstatt ou de La Tène indicam uma mistura de indivíduos, uns de cabeça redonda outros comprida. Parece que os de cabeça redonda representavam, na generalidade, as populações há mais tempo estabelecidas da Idade do Bronze na zona norte-alpina, enquanto os de cabeça comprida, que certos motivos levam a crer formassem o elemento mais aristocrático, eram evidentemente descendentes de uma população mais da Europa Central, que se entendera para ocidente. Em geral, o material osteológico estudado até hoje indicava uma situação em tudo semelhante à de qualquer grupo étnico moderno, em que são aparentes misturas de tipos genéticos, mas em que certas características físicas são proeminentes, especialmente em relação a diferentes tipos ou elementos da população total.
“A luz que a arte representativa lança sobre este assunto é considerável, e simultaneamente consistente. Uma estilização da cabeça e da máscara humanas levadas ao extremo, pela arte nativa de La Tène, inibe-nos de fazer quaisquer deduções sobre a forma da cabeça. Em compensação certas características tiradas de outros lados, como os bigodes caídos e o cabelo solto puxado para trás, dão-nos uma certa informação direta sobre a aparência facial, tal como a idealizavam os Celtas.
 
“A escultura clássica dos guerreiros celtas, concebida principalmente segundo a escola de Pérgamo, que comemora a derrota dos Gálatas na Ásia Menor, confirma as descrições literárias dos corpos altos e musculosos, ágeis de membros, com as cabeças redondas ou medianas e o cabelo ondulado ou encaracolado. Também este caso ilustra bem certos aspectos deliberados da aparência pessoal, e é para estes, bem como para o estilo do vestuário e ornamentação, que vamos agora virar a nossa atenção.

Diodoro Sículo é talvez o escritor que melhor descrição geral nos deixou sobre a aparência do guerreiro celta e, ainda neste caso, repetindo, provavelmente, relatos mais antigos e diretos. Começando pelos bigodes, diz que os nobres os usavam compridos, cobrindo a própria boca, mas que à parte isso usavam a cara raspada. Isto está de acordo com o que nos mostram aos trabalhos nativos em metal e com o que pode ver-se em esculturas tão conhecidas como as do Gaulês moribundo e do Grupo de Ludovisi, do guerreiro derrotado que se suicida depois de já ter morto a mulher. Estas duas peças eram originais de Pérgamo, e portanto reproduzem os Galatae que invadiram a Ásia Menor.
“Diodoro afirma que alguns dos homens usavam barbichas, ainda neste caso guerreiros, como é de presumir, mas o seu elemento informativo mais interessante é o modo como usavam o cabelo. Descreve-nos ele como os Celtas untavam constantemente o cabelo com uma espessa loção fixadora e o puxavam todo para trás para produzir um aspecto estranho, como uma crina de cavalo. Parece só se conhecer a existência de uma peça de escultura grega que mostre este estilo peculiar de penteado: a Cabeça de Gizé, agora no Museu do Cairo, que parece ser em estilo mais antigo do que o (e diferente do) da Escola de Pérgamo. Já mencionávamos cabeças e máscaras em trabalho nativo de metal, mas este estilo e penteado parece também aparecer num pequeno número de moedas gaulesas e britânicas das últimas fases da independência.
 
“Não há nos textos irlandeses qualquer verdadeira descrição da aplicação da loção fixadora, mas parece ter-se verificado tal prática, ou outra muito semelhante. Há referências a cabelos compridos tão tesos que as maçãs que lhes caíssem em cima neles ficariam espetadas. Tal é a descrição, por exemplo, aplicada a Cú Chulainn, o modelo dos heróis tribais, cujo cabelo é descrito noutro ponto como de três tons, mais escuro junto à raiz e mais loiro nas pontas, com um tom intermédio no meio. Tratar-se-ia, certamente, do efeito da aplicação do fixador, cujo paralelo se vê hoje todos os dias em cabelos crescidos depois de pintados.”
(texto tirado do livro Os Celtas, do TGE Powell)