O GUERREIRO CELTA

 
A figura do guerreiro é facilmente explicada aqui, por estarmos falando de uma época conhecida como “Idade do Ferro”:

o mundo de então era pautado em valores como a honra, a conquista e a glória – o melhor guerreiro, o mais valoroso e bem sucedido, teria seus feitos cantados em verso e prosa pelos poetas e bardos, ganhando, assim, a eternidade.
Ademais, é através da glória gerada pelos feitos heróicos e grandiosos que se obtém poder, atraindo e mantendo fiéis os aliados e conseguindo a obediência dos súditos.
Como todas as culturas de origem indo-européia na Idade do Ferro, os celtas eram, antes de tudo, uma sociedade guerreira.
O conceito de guerra de nossos dias é muito diferente da visão dos povos da Antigüidade.
Se hoje a guerra é vista como algo abominável, nas culturas da Idade do Ferro ela era uma forma de sobrevivência e acensão social, uma parte corriqueira do dia-a-dia de toda uma sociedade.
Entre os celtas, poder-se-ia até mesmo dizer que a guerra era como um esporte - digamos, o futebol moderno.

Os melhores guerreiros - os mais fortes e habilidosos eram respeitados e admirados, e recebiam o nome de "campeões" tribais.
 
Seu status elevado lhes trazia riquezas e regalias, como costuma acontecer com os maiores futebolistas de nossos dias.
Até mesmo as batalhas em si tinham muito a ver com o futebol moderno: existia uma 'temporada' de guerras - normalmente na primavera - em que as tribos rivais se enfrentavam em busca de poder, riqueza e ascendência.



Nas guerras inter-tribais - uma constante na idade do Ferro celta, como nos mostram os relatos clássicos e as lendas - as hostes se encaminhavam para o local de batalha com seus estandartes, ruidosas cornetas chamadas carnyx e gritos de guerra e, após grandes provocações, partiam para o enfrentamento.
Os vencedores voltavam para casa com seus troféus - espólios e, em alguns casos, as cabeças dos melhores inimigos derrotados.
 
Tudo isso pode soar barbárico a princípio, mas os grandes tumultos nos modernos estádios em dias de jogos importantes mostram que, exceção feita às cabeças cortadas, pouco ou nada mudou...


Ou melhor, mudou, sim: para os celtas a guerra era sagrada.
Diversas deidades importantíssimas estão associadas ao ofício do guerreiro: Morríghan, a "Grande Rainha"; Scathach, a sensual instrutora nas artes da guerra; Nuada e sua espada; Lugh e sua lança 'inescapável' - todos esses mitos comprovam a sacralidade da guerra para os celtas.
 

E, ao contrário do que se pode imaginar, a guerra celta não tinha a função da guerra moderna de aniquilar o inimigo: existia todo um código de honra a ser respeitado em combate - em alguns casos, detectamos até mesmo semelhanças com a nobreza do código de guerra dos tão admirados e respeitados samurais do Japão feudal.
Era considerado extremamente desonroso, por exemplo, atacar um inimigo que já estivesse envolvido em combate com outro guerreiro.
Atacar um inimigo pelas costas era um tabu, e como prova de que para os celtas a guerra não era um surto destrutivo e aniquilador, muitos combates entre tribos rivais sequer chegavam a ocorrer: por acordo entre as tribos, por vezes a luta se restringia a um combate individual entre os dois melhores guerreiros - os campeões tribais: a tribo do vencedor do combate era declarada a vencedora da guerra como um todo, poupando assim dezenas, centenas de vidas, sem deixar de satisfazer a função social da guerra.
Essas nobres regras, contudo, não reduziam a capacidade bélica dos guerreiros celtas.
Quando os romanos e suas bem treinadas legiões invadiram a Gália, depararam-se com uma resistência formidável. Por diversas vezes, a disciplina romana não foi páreo para o poderio bélico dos celtas, que inflingiram às legiões pesadas - e por vezes humilhantes - derrotas.
Foi necessário que Roma aprendesse muito com essas derrotas até desenvolver uma estratégia diferenciada, totalmente adequada ao estilo de guerrear dos celtas, para que Cesar finalmente pudesse derrotá-los na Batalha de Alésia.
A proverbial desunião das tribos celtas, claro, contribuiu para esse fim.
Antes disso, porém, como já mencionado antes, os guerreiros celtas eram admirados por suas habilidades e costumavam ser empregues por outros povos em suas guerras, como mercenários - é o caso dos gaesatae, lanceiros celtas que lutaram ao lado das hostes de outros povos - egípcios, gregos e outros.
Julio Cesar registra que os celtas em guerra se mostravam absolutamente destemidos, sem medo da morte, e atribui essa força aos ensinamentos druídicos sobre a eternidade da alma. Sem temer a morte, os guerreiros celtas eram dados a feitos formidáveis, que sem dúvida lhes rendiam a eternidade através das lendas, poemas e canções que os bardos entoariam pelas gerações seguintes conferindo-lhes, assim, a imortalidade pela virtude, tão desejada pelos povos indo-europeus.
“A coragem pessoal era algo essencial, e o sucesso nas batalhas era uma fonte vital de prestígio, poder e seguidores, e também a riqueza material necessária para mantê-los."(Simon James)
Essa característica pode soar, aos nossos ouvidos modernos, um tanto egoísta, mas suas conseqüências eram interessantes: para preservar seu status e sua posição, os líderes celtas eram dados a grandes demonstrações de generosidade para com seus súditos.
Assim, em troca do apoio que recebia da tribo, um chefe tribal lhes ofereceria proteção e banquetes – um dos pontos focais da sociedade celta. Muitas lendas celtas da Irlanda ecoam os relatos dos escritores clássicos acerca da importância dos banquetes oferecidos pelos chefes celtas da Gália.
O poder de um líder era facilmente medido pela riqueza e qualidade do alimento que ele oferecia, e as peças usadas para servir os alimentos, verdadeiras obras de arte, nos dão testemunho da importância dos banquetes como forma de manutenção do prestígio dos nobres e de se fomentar a união da tribo como um todo.
Mas o líder celta – pouco importa se ‘grande rei’ ou chefe tribal – não governava só: a aconselhá-lo na paz e na guerra estava sempre a figura do druida.