Os Padres da Igreja

 

 

 

 

Este ponto de vista não era corroborado, porém, pela igreja do oriente. Vários escritores orientais saudaram o papel de Madalena durante os fatos da Páscoa, vendo-a como uma mulher honrada e não como amaldiçoada pela maldição de Eva.

Cirilo de Alexandria, que era árduo acusador dos gnósticos nestorianos, em 444, dizia que as mulheres eram duplamente honorificadas: através de Maria Madalena, sua representante, todas as mulheres foram perdoadas pela transgressão de Eva e porque uma mulher fora testemunha da ressurreição.

Proclus, patriarca de Constantinopla, em 446, também afirma que as mulheres foram escolhidas para avisar os apóstolos, para serem honorificadas. Gregório de Antióquia, em 593, as chama de as "primeiras apóstolas"; e Modestus, patriarca de Jerusalém, em 630, acreditava que Maria Madalena havia morrido virgem e mártir, e fôra líder das discípulas.

 

De qualquer maneira, no ocidente, a confusão já estava feita. Santo Agostinho era um dos poucos a encará-la como a mulher mais importante dos evangelhos, separando-a das demais personagens femininas, em seu escrito "A Harmonia dos Evangelhos". Em Liber de vita eremítica ad sororem, Sto. Agostinho diz o seguinte sobre o Noli me Tangere no evangelho de João:

"Mas por que, ó Jesus amável, rejeitas desta maneira dos teus santíssimos e desejabilíssimos pés aquela que te ama ? Que palavra dura ! Ele diz: Não me tocar. Mas por que, Senhor? Por que não deveria tocar aqueles teus pés tão desejados, por mim transpassados pelos pregos e cobertos de sangue? Não deveria tocá-los, não deveria beijá-los? Ou talvez é menos amigo porque mais glorioso? E Ele: Não me tocar. Não temas; esta alegria não lhe é tirada, mas postergada: no entanto, vá e anuncia a meus irmãos que ressuscitei. Ela corre depressa, desejosa de voltar".

Era porém, do interesse da igreja de Roma cada vez mais expansionista, caracterizar a necessidade de se combater o pecado, principalmente o que grassava nas terras consideradas pagãs. O Papa Gregório (540-604 D.C.), em cujo pontificado a Inglaterra foi convertida ao cristianismo, utilizou muito esse conceito como forma de justificar o trabalho da Igreja nesses países, e como forma de mostrar que as mazelas do mundo eram causadas pelos pecados dos homens. Dessa maneira, apenas a Igreja Católica de Roma seria a portadora da salvação. Foi em um sermão seu para o povo de Roma, que passava por enormes dificuldades devido à fome, à guerra e à peste, que ele utilizou o exemplo de Maria Madalena como a prostituta que se arrependeu, e só por isso foi curada, passando o resto da vida em penitencia. Esse exemplo foi utilizado como forma de demonstrar que o povo necessitava de fé e penitência. Foi também nesse sermão que Gregório pontificou que Maria Madalena, Maria de Betânia e a pecadora de Lucas eram a mesma mulher.

Maria Madalena perdeu então, sua posição de Apóstola dos Apóstolos, e se tornou o exemplo da perdição do mundo.

 

A partir do século X, inúmeras "Vidas" de Maria Madalena foram escritas. Em seu Speculum Ecclesiae, Honório de Autun, em um trabalho centrado sobre o pecado, a misericórdia divina e a penitência, a descreve como uma adúltera, que se tornou uma meretriz, sendo salva apenas pela clemência de Jesus. Tanto ele como Gregório Magno a descrevem como escrava da luxúria, ao contrário de Marta, sua irmã. Após a morte do Cristo, Maria passaria o resto de sua vida em penitência, morando em uma gruta.

O problema era ajustar o fato de Maria ser denominada através de duas cidades diferentes : Magdala e Betânia. Esse problema foi resolvido no século XII, quando Iacopo de Varazze, em seu Legenda Áurea, diz que ela era oriunda de uma família rica de Betânia, que morava em um castelo chamado Magdala. Com a morte dos pais, Marta teria herdado a vila de Betânia e ela o castelo, daí o seu nome.

Esta visão de Maria Madalena irá persistir até o século XX, quando os teólogos católicos passam a enxergar o seu papel de maneira puramente espiritual e simbólica, e também beneficiada pelo aumento da importância do papel da própria mulher na sociedade contemporânea. Madalena passa a ser vista novamente como a noiva simbólica do casamento alquímico com o Cristo.